Worldschooling: o mundo é a nossa Escola

Pedro loves maps! (Thailand)

Neste ano escolar os nossos filhos trocaram as mochilas da escola (carregadas de manuais e material escolar que frequentemente excedem o peso máximo que uma criança deveria suportar) e a rotina das manhãs apressadas, quando engoliam o pequeno-almoço e corriam para o carro ainda com o pão na mão e o resto do iogurte na bochecha; por malas de viagem onde pouco mais cabe que algumas peças de roupa e um ou outro livro ou jogo.

Os dias, outrora estruturados e sem um minuto de tédio, entre a escola, o OTL e as atividades extracurriculares, deram lugar a uma montanha-russa de emoções e aventuras onde a escola ficou muitas vezes esquecida. É difícil pensar nas invasões napoleónicas quando estamos a aprender a lutar como um Jedi na Disneyworld em Orlando, a pescar num lago no Canadá ou a caminhar entre Sequoias gigantes em Yosemite

Efetivamente, a vida nómada não se coaduna com a escola tradicional.

Playing with Art, USA

Inicialmente pensámos que seria possível tentar integrar o curriculum das várias disciplinas no nosso dia-a-dia como viajantes, fazendo uso de ferramentas como a Escola Virtual e outras plataformas de apoio escolar, mas a realidade rapidamente se apoderou das nossas boas-intenções.

Durante os primeiros 5 meses viajámos a um ritmo alucinante, ávidos de explorar o mundo. E lentamente se instalou a frustração e a preocupação de não estarmos a conseguir acompanhar as matérias escolares. Contudo, desde o início que acreditamos que as experiências retiradas desta viagem são muito mais enriquecedoras do que qualquer ano letivo numa escola tradicional. 

“Educating the mind without educating the heart is no education at all”

Aristóteles


Enquanto caminhávamos em direção aos glaciares na Nova Zelândia existiam marcos que ilustravam o seu dramático retrocesso e placas informativas que apontavam como causa principal as alterações climáticas provocas pelo homem. Ao longo do percurso iam explicando o que poderíamos fazer para travar estes acontecimentos e o seu potencial efeito devastador. Ver in loco o impacto do aquecimento global foi certamente um momento precioso de aprendizagem. 

De igual forma, observar o fundo do mar de Andaman na Tailândia cheio de plástico e as bermas das ruas tratadas como lixeiras gerou nas nossas crianças uma sensibilidade impressionante para as questões ambientais. Muitas vezes aparecem-nos com bocados de plástico que apanham quando mergulham…” Estava a poluir o mar” – dizem eles. 

Também se tornaram acérrimos defensores dos animais. Para isso contribuiu a nossa visita ao Gibbon Rehabilitation Project e também o facto de terem visto elefantes, que deveriam viver livres na selva, a serem torturados e domesticados para serem montados para divertimento de milhares de turistas. O turismo ético deve ser cada vez mais uma preocupação! 

Quando nos foi possível, apostámos em implementar uma rotina diária de estudo. O facto de termos um espaço só nosso com boa ligação à internet foi a melhor forma de nos aproximarmos da escola tradicional. O nosso objetivo foi sempre explorar a curiosidade natural das crianças e apresentar-lhes a matéria de forma divertida e interligada com a realidade envolvente, mas rapidamente nos rendemos à conveniência da estruturação. A Escola Virtual é efetivamente uma ferramenta excelente e que nos ajudou imenso apesar de seguir um método de ensino tradicional.

Puzzleworld, New Zealand

Ficámos surpreendidos com as nossas crianças. Depois de combinarmos com elas um horário de trabalho para as nossas manhãs, acordavam sozinhas, vestiam-se, preparavam o pequeno-almoço e sentavam-se a estudar…mesmo quando os pais ainda preguiçavam na cama!

O nosso maior desafio foi o nosso filho mais novo que está no 1º ano e deveria aprender a ler e a escrever. Não sei se pelo facto de nunca ter frequentado a escola, para ele foi especialmente difícil ter de se sentar e pegar no lápis. É certo que cada criança tem o seu ritmo e as suas preferências. Este conflito entre os diferentes ritmos, o da escola e o da criança, é talvez um dos aspetos mais difíceis de conciliar, especialmente dentro de uma sala de aula com tantas crianças diferentes. O Ensino Doméstico deveria permitir-nos essa flexibilidade e ir de encontro ao ritmo e preferências da criança. 

Playing LEGO, Thailand

Contudo, a tarefa de pai/mãe-professor(a) é bastante desafiante e foram muitos momentos de enorme frustração (desespero até…). Ter 3 crianças em patamares de ensino tão diferentes a requererem atenção em simultâneo provoca bastante instabilidade. Também em paralelo sentimos a dificuldade de acesso a material complementar para realização de experiências ou manipulação. Até mesmo o simples ato de imprimir algumas fichas pode ser demorado ou impossível.

Mas a verdadeira luta é conseguir convencê-los a largar o Ipad e o telemóvel, onde se refugiam nos jogos e nos filmes, para irem descobrirem o mundo lá fora…

É difícil aceitar que não estamos a progredir como desejávamos, mas sinto que aprendemos muitas lições valiosas ao longo destes meses em que viajámos pelo mundo. Talvez as mais valiosas de todas. 

The kids at Yosemite National Park (Half Dome), USA

“Learning is experience. Everything else is just information.”

Albert Einstein