Cambodja: em busca dos templos perdidos

My little Buddha

Na nossa mente há uma mística inexplicável associada a Angkor Wat. Este templo, símbolo do Cambodja, é considerado como a “maior estrutura religiosa já construída e um dos tesouros arqueológicos mais importantes do mundo”. 

Chegámos a Siemp Reap ávidos por explorar o extenso complexo de templos de Angkor; tarefa que se revelou um desafio imenso devido ao calor seco e sufocante que se fazia sentir. 

À chegada ao aeroporto fomos recebidos por dois tuc-tucs que nos levaram para o hotel. O nosso corpo desidratava rapidamente e apenas no quarto, com o ar condicionado ligado, encontrámos algum conforto. 

Dad had to go alone in one tuc-tuc in order to carry all the bags

O nosso hotel, o Hello Cambodia Boutique , servia um pequeno-almoço fantástico à la carte: panquecas, french toasts ou croissants regados com um delicioso maple syrup (que nos fez voltar por momentos aos EUA e ao Canadá). No roof top a piscina com vista para a cidade proporcionou muitos momentos refrescantes.

Inicialmente pensámos em ficar apenas alguns dias, mas depois de 9 meses em viagem atingimos aquilo que entre os viajantes é vulgarmente designado por travel burnout, ou seja, o nosso espírito aventureiro e explorador tinha sido domado pelo cansaço das múltiplas deslocações, o desconforto da mudança quase diária de colchão, as saudades da família e dos amigos, a falta dos cheiros e dos sabores familiares…

Abrandámos o ritmo. Assentámos arraiais durante duas semanas em Siem Reap e resolvemos conhecer a cidade e os templos com alguma calma. Assim, o resto do Cambodja ficou por conhecer, mas ganhámos alguma sanidade mental. 

Começámos por visitar a fábrica dos Artisans de Angkor. Uma experiência verdadeiramente interessante para as crianças que aprenderam mais sobre o ciclo da seda e a importância desta matéria-prima ao longo da história mundial.  

Learning how silk is made at Artisans d’Angkor

O parque arqueológico de Angkor oferece dois trilhos de exploração: o pequeno circuito e o grande circuito. Devido à distância entre os diferentes templos é praticamente impossível realizar os percursos a pé. Optámos por fazê-lo de tuc-tuc. 

O Pequeno e o Grande Circuito

Realizámos o percurso no sentido inverso ao habitual na tentativa de evitar as multidões, particularmente de chineses, que invadem os templos durante todo o ano. 

Assim, o primeiro local que visitámos logo ao início da manhã estava deserto. Éramos os únicos caminhantes em Srah Srang, um reservatório de água escavado em meados do século X envolto numa arquitetura magnífica onde criaturas parecidas com pássaros, as Garudas, montam Nagas de 7 cabeças. Estas respresentações são abundantes por todo o complexo. 

Garuda & 7 headed Naga

Do outro lado do reservatório ergue-se Banteay Kdei. Apesar da deterioração evidente causada pela utilização de rocha calcária de fraca qualidade, este templo budista foi utilizado pelos monges até cerca de 1960 e está agora a sofrer intervenções de recuperação. 

Próxima paragem: Ta Prohm – este templo ganhou popularidade por ter sido usado como cenário do filme Lara Croft. É praticamente impossível visitar devido à enchente de turistas. No entanto, é realmente impressionante observar a fusão da natureza com a arquitetura humana, numa viagem pós-apocalíptica a um mundo um dia foi habitado pelo homem mas que a Natureza implacavelmente reconquista. Contudo, apesar de marcadamente presente em Ta Prohm, este sentimento é transversal a praticamente todo o complexo de Angkor. 

Seguimos para o templo inacabado de Ta Keo. Em formato de pirâmide com cinco torres (quincunx), ressalta pela falta de decorações exteriores. Diz a lenda que o templo foi atingido por um relâmpago, interpretado como sinal de mau presságio e a partir daí a construção foi interrompida.

Entrámos no perímetro da cidade pelo Victory Gate e chegámos ao incrível Angkor Thom ou Bayon Temple (ou Templo das Caras Sorridentes). Os rostos cravados na pedra parecem perseguir-nos. É impressionante e indescritível!

Smiling faces at Bayon Temple

Entretanto o corpo já pedia descanso. Bebíamos água como camelos, mas o sol não dava tréguas. A obra-prima de Angkor ficaria para outro dia.

Angkor Wat é o elemento central de todo o complexo de templos. A experiência de assistir ao nascer ou por-do-sol em Angkor Wat é habitualmente um must-see. No entanto, é sabido que milhares de pessoas se juntam diariamente para estes eventos  reduzindo significativamente a sua visibilidade e obrigando a uma logística que dificilmente seria viável com três crianças. 

Angkor Wat é majestoso e imponente, com os seus claustros e galerias, relevos cravados na pedra com detalhes impressionantes e as cinco torres representadas na bandeira do país que tornaram a esta obra-prima da arquitetura Khmer no símbolo do Cambodja. Caminhar ao longo do gigantesco perímetro, junto dos monges budistas com as suas vestes laranja e olhar sereno, entre paredes com séculos de história leva-nos numa inevitável viagem de introspeção e reflexão.

Não sendo uma paragem habitual para os turistas, não quisemos deixar de visitar o Museu de Minas Terrestres. Recomendamos vivamente este local que nos ensina a aprender com a história. Uma lição que nunca caia no esquecimento das gerações vindouras.

O museu fica a caminho de outro templo muito pouco visitado, mas que foi um dos nossos favoritos: Banteay Srei. Tínhamos o espaço praticamente só para nós. 

As gravuras na pedra abundam. As esculturas escoltam-nos pelos corredores. Caminhamos num túnel do tempo.

Kids playing Star Wars at the temples

Outro templo esquecido e muito pouco falado é a pirâmide de Koh Ker. De contornos semelhantes à famosa Chichen Itza, mas em avançado estado de deterioração, lamentamos que não lhe seja dada a devida importância e que permaneça fora do roteiro da maior parte dos visitantes. 

Mom & Dad at Koh Ker

O nosso menino comemorou o seu sétimo aniversário no Cambodja. Foram momentos fantásticos de celebração na companhia de jovens portugueses que se encontravam no mesmo hotel. 

Apesar de todo o cansaço e de momentos extenuantes, o sol do Cambodja brilhará eternamente nas nossas memórias. 

“I’ve got a great ambition: to die of exhaustion rather than of boredom” 

Vietnam: a estrela da Indochina

Vietnam: a estrela da Indochina

Há imagens e preconceitos que os filmes e a comunicação social nos colocam na memória e que influenciam a forma como imaginamos um determinado local. A desconstrução dos mitos que criamos nem sempre é fácil.

Quando chegámos à cidade de Hanói, capital do Vietnam, não tínhamos qualquer itinerário pensado para as quatro semanas que iríamos ficar no país. E assim partimos à descoberta.

Hanói

Os dias cinzentos e chuvosos roubaram certamente alguma da beleza desta cidade que nos pareceu caótica, desordenada e suja. Aqui visitámos o Templo da Literatura, onde aprendemos mais sobre o Confucionismo, e a Pagoda de Um Pilar que fica mesmo ao lado do Mausoléu de Ho Chi Minh onde é possível prestar homenagem ao corpo embalsamado deste estadista cujo nome significa “aquele que ilumina” (no entanto não conseguimos visitar pois só abre durante as manhãs). Levámos também as crianças a assistir ao icónico espetáculo das Marionetas na Água, uma arte milenar que nos introduziu à cultura vietnamita, crenças e cenas do quotidiano.

The kids on a rainy day at the Temple of Literature (Hanoi)

Ha Long Bay, Cat Bat Island & Lan Ha Bay

Ha Long Bay, que significa “dragão descendente”(diz a lenda que este foi enviado para ajudar os povos vietnamitas a defenderem-se contra invasores) é o cartaz de visita do turismo no Vietnam. Considerada Património da Humanidade pela UNESCO, esta baía é composta por mais de 1600 ilhas e penhascos de calcário verdejantes. Apesar das nossas restrições orçamentais decidimos fazer um dos famosos cruzeiros. Num tiro de sorte conseguimos um preço fantástico para um passeio de 2 dias/1 noite a bordo do Bhaya Cruise Classic 3. Foi uma experiência fantástica!

Com vontade de explorar mais estas baías partimos de ferry para a ilha de Cat Ba. A ilha está agora a começar a abrir-se ao turismo pelo que proliferam as construções. A encosta lindíssima oculta 3 praias que foram privatizadas pelas grandes cadeias hoteleiras.

Along the coast of Cat Ba

A partir de Cat Ba é possível explorar em pequenos barcos a baía de Lan Ha que habitualmente não faz parte dos roteiros dos cruzeiros (ou só está incluída nos mais dispendiosos) que partem de Ha Long .

A baía de Lan Ha consegue ser ainda mais bonita que a de Ha Long. As aldeias piscatórias flutuantes. As ilhas de areia branca. E claro, o passeio de Kayak por baixo de penhascos de calcário e reentrâncias secretas que conduziam a pequenas baías onde a natureza parecia intocada. Foi certamente um dos melhores que já alguma vez fizemos.

Floating village
Monkey Island
Inês kayaking at Lan Ha Bay

Tam Coc

A viagem de autocarro até Tam Coc ajudou bastante à nossa decisão de evitar futuramente este meio de transporte no Vietnam. Pouco tínhamos ouvido falar deste lugar antes de aqui chegarmos. A pequena vila é calma e charmosa. Abundam restaurantes e pensões familiares. As bicicletas circulam tranquilamente ao longo dos campos de arroz e por entre o gado. O rio corre alegremente pontuado de barcos que passeiam os turistas.

Os pontos altos da nossa estadia em Tam Coc foram o passeio de barco pelas grutas de Trang An e a visita às Mua Caves. Percorrer o interior dos fabulosos penhascos de calcário é algo absolutamente incrível. E a vista do topo das mais de 500 escadas das Mua Caves é de cortar a respiração (principalmente depois da subida!)

View from the top of the Mua Caves

Hue

Hue é uma cidade que cresceu em redor das muralhas do palácio da Cidade Imperial classificada pela UNESCO como Património da Humanidade. Sendo um dos pontos de visita obrigatório, não podíamos deixar de explorar esta pérola que nos proporcionou fantásticos momentos de aprendizagem.

Hue Imperial City

Da Nang & Hoi An

Foi uma aventura chegar até Da Nang. Onze longas horas de comboio durante a noite numa cabine com beliches triplos. As crianças adoraram e dizem que até dormiram bem. Os adultos não podem dizer o mesmo.

Destino de férias para muitos asiáticos, esta cidade na orla costeira do Mar da China Meridional, cresceu impulsionada pelo turismo. Não é por isso de espantar que aqui se encontrem dois fabulosos parques temáticos: o Sun World Danang Wonders, onde a roda gigante com vista sobre toda a cidade é a principal atração, e o Sun World Ba Na Hills ,cujo teleférico (detentor de vários recordes do Guiness) nos eleva ao longo de mais de 5Km até à incrível Golden Bridge (Ponte Dourada – “Mãos de Deus”)

Sun World Da Nang Wonders
The kids at the Golden Bridge – Ba Na Hills

A cerca de 30Km de Da Nang fica a mágica cidade de Hoi An. Conhecida pelas suas lanternas que descem o rio iluminando a noite escura, esta cidade antiga encanta pelos seus sons crepitantes, padrões multicolores e atmosfera calma e inebriante.

Boats & lanterns – Hoi An

Aqui aprendemos a fazer as famosas lanternas e pudemos levar na mala um pouco desta magia. A “Senhora das Lanternas” é excepcional!

Making a lantern @ Lady Lantern Workshop

Ho Chi Minh (Saigão)

Apesar do novo nome, para os vietnamitas esta cidade continua a chamar-se Saigão. Com cerca de 8,5 milhões de motas em circulação, nas suas artérias corre o sangue do caos urbano. Atravessar as ruas é um verdadeiro desafio e as buzinas ecoam num som estridente e incessante. Optámos por ficar alojados na periferia da cidade, o que nem por isso nos garantiu um sono descansado devido às novas construções que emergem um pouco por todo o lado.

Vietnam’s highest building – view from Saigon’s river ferry boat

A partir de Saigão é possível visitar os famosos túneis de Cu Chi, usados pelos Vietcongs para combater as forças americanas durante a guerra. Fomos aos de Ben Duoc. É inimaginável pensar que ali viviam famílias inteiras, com ar rarefeito em condições desumanas. Com uma estrutura de 3 níveis de profundidade, compreendiam zonas chamadas de bunker com uma configuração triangular e escapatórias com ligação aos lençóis de água. Estes subterrâneos levam-nos numa viagem a um passado não muito distante que marcou para sempre a história deste país.

Exploring the Cu Chi tunnels

O rio Mekong é um importante recurso para milhões de pessoas na Ásia e é famoso pelo seu delta. Fomos conhecer algumas das ilhotas que compõem um dos mais famosos deltas do mundo. O Vietnam tem quatro animais sagrados: o dragão (poder), o unicórnio (o intelecto), a tartaruga (longevidade) e a fénix (nobreza), sendo estes os nomes das principais ilhas da região. O turismo é intenso mas as estruturas são rudimentares. As águas correm sujas. A poluição é evidente e escandalosa. O passeio deixou-nos algo perplexos e chocados com a decadência envolvente.

Mekong Delta boat tours

Guardamos recordações maravilhosas deste país que ainda luta para se reerguer das cinzas da colonização e da guerra. Contudo, sentimos que ainda há um longo caminho a percorrer no sentido do respeito pelo estrangeiro. Aprendemos a defender-nos das “armadilhas turísticas” e de vários “esquemas” que existem para sacar dinheiro ao turista. Existe neste povo um ressentimento que se esforçam por esconder mas que aflora neste tipo de comportamentos.

Foi um adeus agridoce.

I can’t go back to yesterday because I was a different person then.

Lewis Carrol

Tailândia: os sons da selva, o caos das cidades e a utopia das praias

A Tailândia abre-nos as portas para vários mundos. Quando chegámos a este país do sudoeste asiático estávamos cansados e a precisar de repor energias e abrandar o ritmo da viagem.

PHUKET

Escolhemos primeiro o mundo das praias. Phuket é a maior ilha da Tailândia e foi a nossa casa durante um mês.

Phuket beaches – Kata Noi viewpoint

O nosso apartamento ficava num condomínio fechado com uma piscina maravilhosa. A praia de Bang Tao encontrava-se a cerca de um quilómetro; uma distância que, podendo facilmente ser feita a pé, debaixo do calor intenso que se fez sentir durante toda a nossa estadia, transformava a caminhada numa verdadeira prova de esforço.

Em Phuket as crianças puderam matar saudades do irmão mais velho. Que alegria imensa foi o reencontro!

The kids & the big brother

Também uma amiga de longa data tirou uns dias com a família para se juntar a nós. Foram momentos mágicos e inesquecíveis!

Os dias foram passando num ritmo lento e relaxado. Apesar da panóplia de actividades e tours que a região oferece, optámos por aproveitar o aconchego do “lar” e introduzir alguma rotina nos nossos dias de forma a darmos continuidade ao nosso plano de Ensino Doméstico. Durante as manhãs estudávamos com as crianças com o auxílio da plataforma da Escola Virtual e à tarde preguiçávamos na piscina.

A partir de Phuket resolvemos visitar as ilhas Phi Phi. Não fizemos nenhum tour na tentativa de economizar mas acabámos por nos arrepender. A viagem de ferry é longa e o último barco regressa muito cedo pelo que pouco tempo tivemos para explorar a ilha. Foi no entanto suficiente para perceber que este pequeno paraíso de areias brancas e águas de cor hipnótica está completamente comido pelo turismo e que pouco resta da beleza intocada e que outrora existiu. Ao mergulhar naquelas águas somos transportados para um mundo de corais mortos e de óleo flutuante derramado pelas centenas de barcos que transportam os milhares de turistas que alimentam o plástico submerso que ganhou vida.

Phi Phi islands

Um dos pontos altos da nossa estadia em Phuket foi a visita ao Gibbon Rehabilitation Project e a sensibilização das nossas crianças para a necessidade de proteger da vida selvagem. Estes animais são muito especiais e estão a ser levados à extinção devido à exploração turística de que são alvo.

If we can teach people about wildlife, they will be touched. Share my wildlife with me. Because humans want to save things that they love.

Steve Irwin

KHAO SOK

Floresta húmida imensa, penhascos de calcário verdejantes, grutas de estalactites e estalagmites espetaculares e um lago artificial que se estende por 185Km2: Khao Sok é como uma obra de arte cubista, cheia de fragmentos, numa composição única que nos integra e transforma.

Monkey playing at Khao Sok National Park

Aqui pudemos explorar a selva, brincar com os macacos e percorrer o rio numa jangada de bambu. Ficámos sem respirar quando os majestosos elefantes se atravessaram no nosso caminho e nos convidaram para tomar banho. Estar ao pé deste grandioso mamífero, encostar o rosto e sentir a sua pele áspera e rugosa, e ver o nosso reflexo nos seus olhos doces é tão especial que faltam palavras para descrever.

Bathing with the elephants

Dormir em casas flutuantes e acordar no meio do lago com o sol a espreitar entre a neblina que beija as águas. O kayak que nos leva pelo silêncio que ecoa na madrugada. Grutas que nos obrigam a ficar completamente submersos para as podermos visitar. Surreal.

Floating houses – Khao Sok lake
Kayaking in the mist of dawn
Family picture at Khao Sok lake

On Earth there is no Heaven, but there are pieces of it.

BANGKOK

O caos urbano de Bangkok compõe-se numa tela de contrastes onde arranha-céus fazem sombra às barracas de madeira e telhas metálicas. O rio Chao Phraya serpenteia banhando o luxo e a opulência com os esgotos da pobreza e da decadência.

É uma cidade imensa, de um impacto visual extraordinário. O Grand Palace que invoca uma mistura de diferentes tipos de tendências arquitectónicas (Sri Lanka, Cambodja e Tailândia) num complexo de edifícios imponentes. O detalhe brilhante de Wat Arun que ilumina o céu com o seu reflexo de luz nas águas do rio. O gigante Buda reclinado de Wat Pho com os seus pés auspiciosos em madre-pérola.

Depois de mais um reencontro, desta vez com uma amiga suíça que aqui se encontrava de férias, foi na Sala Chalermkrung do Royal Theatre of Bangkok onde assistimos ao Hanuman Show que conhecemos um casal português com quem tivemos o privilégio de explorar um pouco mais de Bangkok.

Juntos visitámos o Maeklong Railway Market, o famoso mercado que se encontra em cima de uma ferrovia e que se recolhe a cada passagem do comboio, e o mercado flutuante de Damnoen Saduak onde fizemos compras a partir do barco enquanto navegávamos pelos canais. A antiga capital da Tailândia, Ayuttaha, considerada agora património da humanidade pela UNESCO levou-nos à descoberta da história deste país. As crianças ficaram impressionadas com a história do ataque que levou à queda da cidade e a decapitação das estátuas dos Budas.

Mae Klong Railway Market
Decapitated Buda Head embraced by tree roots – Ayuttaha

A people without the knowledge of their past, origin and future is like a tree with no roots.

CHIANG MAI

Com uma atmosfera bastante diferente de Bangkok ou de Phuket, Chiang Mai é uma cidade cosmopolita com uma vibração histórica.

Nos arredores e Chiang Mai é possível visitar algumas Hill Tribes como os Akha, os Lahu ou os Karen (Long Neck). Existe um intenso debate ético associado à exploração destas tribos para efeitos turísticos. Queríamos mostrar aos nossos filhos a diversidade cultural e o impacto das tradições (como os colares no pescoço usados pelas mulheres e meninas Karen), mas por outro lado estávamos relutantes. Acabámos por encontrar o projeto da Union of the Hill Tribes que nos deu algumas garantias de que o dinheiro cobrado seria usado para melhorar as condições das aldeias e dos seus habitantes.

Karen children

A norte da cidade fica o famoso Triângulo de Ouro, as zonas ribeirinhas onde se cruzam as fronteiras de Myanmar, Tailândia e Laos, aquela que já foi uma das maiores áreas produtoras do ouro negro: o Ópio. O Museu do Ópio oferece uma experiência imersiva ao longo da história do ópio e da dicotomia entre o bom e o mau uso desta substância.

Aprender a fazer papel a partir de cocó de elefante foi a experiência que mais marcou os nossos pequenos. Do Poo Poo Paper trouxemos um caderno personalizado decorado por cada um deles.

The kids and their notebooks – Elephant Poo Poo Paper

The creative adult is the child who has survived.

CHIANG RAI

Para nós Chiang Rai ficou marcada pelos seus templos.

Visitar Wat Rong Khun (White Temple) leva-nos uma viagem dantesca, simultaneamente tenebrosa e de uma beleza ímpar.

Purgatory – White Temple

Ficámos também muito impressionados com o Wat Rong Sua Ten (Blue Temple) que, sendo uma construção recente e não tendo ainda a visibilidade do templo branco, está a ganhar terreno e a deslumbrar quem o visita.

A Baan Dam (Black House) é uma criação de um artista tailandês. No mesmo local reúne a sua casa, o seu estúdio de design eclético e um museu que engloba a sua coleção de ossos, peles de animais e chifres.

Swinging at the Baan Dam

Art washes away from the soul the dust of everyday life

Pablo Picasso


PAI

Não podíamos deixar de referir a nossa passagem por esta pequena vila do norte da Tailândia junto à fronteira com Myanmar. Aqui descobrimos uma Tailândia mais rural que só agora começa a descobrir o turismo. As ruas à noite enchiam-se de bancas de comida. Por todo o lado música e animação. Respirava-se uma liberdade boémica encantadora.

Relaxing at our Homestay in Pai

A Tailândia não é só um país na nossa lista. Os dois meses que aqui vivemos foram muito intensos. Aprendemos um pouco da língua, dos costumes. Sofremos com o calor intenso. Deliciámos-nos com a comida e os batidos de fruta. Experientámos as tradicionais massagens. Crescemos na simplicidade e alegria de um povo que é feliz e abraça a vida com um sorriso.

A smile is the universal welcome.

Até já Tailândia.

Worldschooling: o mundo é a nossa Escola

Pedro loves maps! (Thailand)

Neste ano escolar os nossos filhos trocaram as mochilas da escola (carregadas de manuais e material escolar que frequentemente excedem o peso máximo que uma criança deveria suportar) e a rotina das manhãs apressadas, quando engoliam o pequeno-almoço e corriam para o carro ainda com o pão na mão e o resto do iogurte na bochecha; por malas de viagem onde pouco mais cabe que algumas peças de roupa e um ou outro livro ou jogo.

Os dias, outrora estruturados e sem um minuto de tédio, entre a escola, o OTL e as atividades extracurriculares, deram lugar a uma montanha-russa de emoções e aventuras onde a escola ficou muitas vezes esquecida. É difícil pensar nas invasões napoleónicas quando estamos a aprender a lutar como um Jedi na Disneyworld em Orlando, a pescar num lago no Canadá ou a caminhar entre Sequoias gigantes em Yosemite

Efetivamente, a vida nómada não se coaduna com a escola tradicional.

Playing with Art, USA

Inicialmente pensámos que seria possível tentar integrar o curriculum das várias disciplinas no nosso dia-a-dia como viajantes, fazendo uso de ferramentas como a Escola Virtual e outras plataformas de apoio escolar, mas a realidade rapidamente se apoderou das nossas boas-intenções.

Durante os primeiros 5 meses viajámos a um ritmo alucinante, ávidos de explorar o mundo. E lentamente se instalou a frustração e a preocupação de não estarmos a conseguir acompanhar as matérias escolares. Contudo, desde o início que acreditamos que as experiências retiradas desta viagem são muito mais enriquecedoras do que qualquer ano letivo numa escola tradicional. 

“Educating the mind without educating the heart is no education at all”

Aristóteles


Enquanto caminhávamos em direção aos glaciares na Nova Zelândia existiam marcos que ilustravam o seu dramático retrocesso e placas informativas que apontavam como causa principal as alterações climáticas provocas pelo homem. Ao longo do percurso iam explicando o que poderíamos fazer para travar estes acontecimentos e o seu potencial efeito devastador. Ver in loco o impacto do aquecimento global foi certamente um momento precioso de aprendizagem. 

De igual forma, observar o fundo do mar de Andaman na Tailândia cheio de plástico e as bermas das ruas tratadas como lixeiras gerou nas nossas crianças uma sensibilidade impressionante para as questões ambientais. Muitas vezes aparecem-nos com bocados de plástico que apanham quando mergulham…” Estava a poluir o mar” – dizem eles. 

Também se tornaram acérrimos defensores dos animais. Para isso contribuiu a nossa visita ao Gibbon Rehabilitation Project e também o facto de terem visto elefantes, que deveriam viver livres na selva, a serem torturados e domesticados para serem montados para divertimento de milhares de turistas. O turismo ético deve ser cada vez mais uma preocupação! 

Quando nos foi possível, apostámos em implementar uma rotina diária de estudo. O facto de termos um espaço só nosso com boa ligação à internet foi a melhor forma de nos aproximarmos da escola tradicional. O nosso objetivo foi sempre explorar a curiosidade natural das crianças e apresentar-lhes a matéria de forma divertida e interligada com a realidade envolvente, mas rapidamente nos rendemos à conveniência da estruturação. A Escola Virtual é efetivamente uma ferramenta excelente e que nos ajudou imenso apesar de seguir um método de ensino tradicional.

Puzzleworld, New Zealand

Ficámos surpreendidos com as nossas crianças. Depois de combinarmos com elas um horário de trabalho para as nossas manhãs, acordavam sozinhas, vestiam-se, preparavam o pequeno-almoço e sentavam-se a estudar…mesmo quando os pais ainda preguiçavam na cama!

O nosso maior desafio foi o nosso filho mais novo que está no 1º ano e deveria aprender a ler e a escrever. Não sei se pelo facto de nunca ter frequentado a escola, para ele foi especialmente difícil ter de se sentar e pegar no lápis. É certo que cada criança tem o seu ritmo e as suas preferências. Este conflito entre os diferentes ritmos, o da escola e o da criança, é talvez um dos aspetos mais difíceis de conciliar, especialmente dentro de uma sala de aula com tantas crianças diferentes. O Ensino Doméstico deveria permitir-nos essa flexibilidade e ir de encontro ao ritmo e preferências da criança. 

Playing LEGO, Thailand

Contudo, a tarefa de pai/mãe-professor(a) é bastante desafiante e foram muitos momentos de enorme frustração (desespero até…). Ter 3 crianças em patamares de ensino tão diferentes a requererem atenção em simultâneo provoca bastante instabilidade. Também em paralelo sentimos a dificuldade de acesso a material complementar para realização de experiências ou manipulação. Até mesmo o simples ato de imprimir algumas fichas pode ser demorado ou impossível.

Mas a verdadeira luta é conseguir convencê-los a largar o Ipad e o telemóvel, onde se refugiam nos jogos e nos filmes, para irem descobrirem o mundo lá fora…

É difícil aceitar que não estamos a progredir como desejávamos, mas sinto que aprendemos muitas lições valiosas ao longo destes meses em que viajámos pelo mundo. Talvez as mais valiosas de todas. 

The kids at Yosemite National Park (Half Dome), USA

“Learning is experience. Everything else is just information.”

Albert Einstein

  

Aotearoa: o país onde o céu encontrou a terra

Aotearoa – “Long White Cloud”

Aotearoa é o nome Maori para Nova Zelândia. Quando os primeiros povos polinésios abandonaram as suas ilhas sobrepopuladas em busca de novos mundos, terão avistado a costa da ilha norte. À distância as nuvens pareciam envolver a terra. Diz a lenda que o chefe da embarcação acreditou ter chegado ao local onde o céu se unia à terra e assim batizou este lugar como Aotearoa – “longa nuvem branca”. O povo Maori encontrou assim a sua nova casa.

Desde o momento em que o nosso avião começou a sobrevoar a Nova Zelândia já os nossos olhos incrédulos se rendiam à sua beleza.

Ilha Sul

O nosso itinerário programado era exigente e compreendia muitos quilómetros de estrada. Aterrámos em Christchurch e aproveitámos o único dia que tínhamos para conhecer esta cidade que em 2011 foi devastada por um terramoto violentíssimo que ceifou 185 vidas (185 White Empty Chairs Memorial).

Christchurch tem um fantástico jardim botânico e ainda uma curiosa catedral feita de cartão. Um edifício supostamente temporário que acabou por se tornar num ícone da cidade.

Tínhamos já lido sobre as magníficas águas turquesas do lago Tekapo e Pukaki, mas nenhuma foto ou descrição nos prepara para aquela visão. É simplesmente inacreditável.

Marta at Lake Tekapo

Seguimos caminho sempre com o Monte Cook (ou Aoraki em Maori) no horizonte. Aquele pico de neve dominante que nos inunda de serenidade. Após uma exigente caminhada pudemos vislumbrar o glaciar Abel Tasman – o maior da Nova Zelândia. Contudo, se tivesse de eleger a melhor vista para o Monte Cook, seria sem dúvida a oferecida a partir do lago Matheson.

The kids at Abel Tasman Glaciar
Lake Matheson

A cidade de Queenstown foi a paragem seguinte. A subida ao topo dos Remarkables para uma visão 360º da cidade e os 23Km de estrada que ligam esta cidade a Glenorchy, envolvidos numa paisagem idílica que nunca cansa de nos surpreender foram os pontos altos.

Overview of Queenstown from the top of the Remarkables

Como um glaciar não é suficiente, não quisemos deixar de visitar os famosos Fox e Franz-Josef. Foram caminhadas extenuantes até chegarmos à face visível, mas completámos orgulhosamente os dois percursos . Foi devastador observar o impacto das alterações climáticas no retrocesso dos glaciares.

Inês at Franz Josef Glaciar

Antes de partirmos para a ilha Norte, visitámos lugares mágicos de cortar a respiração, como as águas sagradas de Te Waikoropupu (onde qualquer contacto é proibido) que são tão límpidas que é possível ver debaixo de água até cerca de 63 metros de profundidade! E as pequenas lagoas esmeralda de Riwaka Resurgence, onde as águas geladas parecem hipnotizar-nos num desejo cego de mergulhar.

Riwaka Resurgence

Mas a magia estava apenas a começar.

A travessia de barco entre Picton e Wellington oferece vistas simplesmente magníficas. Os recortes da terra inundados de verde e refletidos num imenso espelho azul. Alguns pinguins vieram dizer-nos adeus.

Ilha Norte

Wellington não é uma capital habitual. A cidade encolhe-se dentro do relevo montanhoso e das baías. As estradas são estreitas e o ritmo é lento. O Aqui nasceu um dos maiores parceiros da indústria cinematográfica de Hollywood: a Weta Cave. Não fizemos o tour devido ao custo mas visitámos a loja e assistimos gratuitamente ao video que nos leva numa viagem pelos meandros da criação de adereços, caracterização de personagens e efeitos especiais.

O museu Te Papa foi visita obrigatória. Adorámos a exposição temporária Gallipoli: the scale of our war que conta precisamente com trabalhos dos estúdios da Weta.

Gollum & the kids at Weta Cave

A paragem seguinte foi Napier. Esta cidade foi reconstruída das cinzas do terramoto de 1931 num estilo de art déco. Ao explorarmos as ruas da cidade fomos levados numa viagem no tempo.

A caminho de Rotorua parámos em Kerosene Creek, onde riachos de água quente jorram em cascata por entre a vegetação fresca.

Rotorua fez-nos recordar de Yellowstone: os lagos de enxofre, as fumarolas dos géiseres, a lama borbulhante… Rotorua levou-nos também à descoberta da cultura Maori. Aqui visitámos uma aldeia típica – a Tamaki Maori Village. Foi memorável!

Pedro & Dad learning the Haka

Tirámos um dia para ir até Matamata, o local onde Peter Jackson encontrou o cenário ideal para criar a aldeia dos hobbits (em parceria com os estúdios da Weta) para a trilogia do Senhor dos Anéis. Caminhar em Hobbiton é algo de muito especial e inesquecível.

The kids at Hobbiton

Os Glow worms são uma das grandes atrações da Nova Zelândia. Estes bichinhos transportam-nos para outra dimensão. O famoso tour das caves de Waitomo não era compatível com o nosso orçamento pelo que encontrámos uma alternativa gratuita: as caves de Waipu. Os miúdos adoraram a aventura de exploração da gruta escura, por trilhos lamacentos e riachos que nos deixaram com os pés ensopados, estalactites e estalagmites com formas estranhas, até chegarmos à arcada principal onde um lago se estendia aos nossos pés e o teto se cobria de milhares de pontinhos luminosos. Por momentos, sentimos-nos no espaço a olhar para uma galáxia distante.

The kids at the Waipu Caves

Viajámos depois para Auckland para embarcar no voo de despedida deste país que nos roubou um pedaço do coração. Regressaremos novamente um dia para o resgatar.

Australia: na ponta do iceberg

Passaram-se mais de dois meses desde que iniciámos o nosso périplo pela Austrália. Imaginámos que seria tempo suficiente para ficar a conhecer uma boa parte deste vasto território, mas rapidamente a realidade das distâncias nos travou os planos. Tínhamos o sonho de caminhar nas terras vermelhas do Uluru e de mergulhar na Grande Barreira de Corais, mas mesmo depois de fazermos mais de 6000Km, não passámos além de Manning Valley. Queremos contudo partilhar algumas das experiências que tivemos “na ponta deste iceberg”.

Great Ocean Road

Ao longo de 240Km entre Torquay e Warrnambool, serpenteado as encostas, estende-se uma das mais belas estradas da Austrália: a Great Ocean Road. As vistas são de cortar a respiração. O mar trabalha incessantemente, esculpindo formas singulares onde o olhar humano vê padrões e significado. Os “Doze Apóstolos” são uma das paisagens mais fotografadas da Austrália.

Me and the kids overlooking the Twelve Apostles

Esta zona é também conhecida pelas suas florestas húmidas (rainforest) onde pudemos realizar caminhadas numa atmosfera mágica por trilhos desafiantes que nos conduziram a quedas de água magníficas.

Phillip Island

Esta ilha perto de Melbourne oferece experiências inigualáveis. Aqui podemos ver baleias, focas e a mais pequena espécie de pinguins do mundo.

Apesar do nosso orçamento não possibilitar grandes extravagâncias, tendo em conta a oportunidade de conhecer mais de perto estes animais tão únicos, resolvemos assistir à famosa Penguin Parade. Não estavam autorizadas fotos ou video pelo que fica apenas o registo na nossa memória. Ao por-do-sol, protegidos pelo lusco-fusco, milhares de pequenos pinguins saiem do mar de regresso a casa após um longo dia de pescaria. São extremamente cautelosos. Caminham cuidadosamente pelo areal, espreitam (garantindo que não há predadores por perto) e por várias vezes assistimos a uma correria de regresso ao mar para nova tentativa. É um espetáculo magnífico oferecido pela natureza.

Waiting for the Penguins at Phillip Island

The Nobbies: um passeio pela costa oeste da ilha que nos presenteia com mais um cenário fabuloso. Para além da vista deslumbrante, podemos cruzar-nos com a fauna local, nomeadamente alguns dos pequenos pinguins que, para nossa sorte, nesta altura do ano, se mantinham no ninho a aconchegar os ovos.

Shoal Bay

A nossa casa na Austrália: a Jucy, garantiu-nos alojamento económico em vários parques de campismo, nomeadamente da rede Big4 da qual nos fizemos sócios. Contudo, para celebrar o Natal decidimos que queríamos um pouco mais de comodidade; mas estava tudo esgotado ou a preços proibitivos! Graças a uma referência, acabámos por encontrar uma “cottage” em Shoal Bay onde pudemos até fazer a árvore de Natal e confeccionar alguma doçaria típica para a ceia. Porque estes momentos são melhores quando partilhados, na ausência dos nossos entes queridos, convidámos a juntar-se a nós uma família alemã que se encontrava de férias na Austrália.

Shoal Bay faz parte de um conjunto de baías na região de Port Stephens que formam uma espécie de península que compreende ainda Salamander Bay, Nelson Bay, Anna Bay e Fingal Bay. A partir do topo de Tomaree Head é possível vislumbrar todas estas reentrâncias de água, num quadro de azuis e verdes infinitos.

View from the top of Tomaree Head

Sydney

Sydney fez-nos recordar da nossa passagem por Toronto e São Francisco. É uma cidade dinâmica e acolhedora. No entanto, através de um único edifício, esta cidade eleva-se numa singularidade arquitectónica que a redefine. Atravessámos a pé a Harbour Bridge, em passo lento, contemplando a luz do sol refletida no edifício da Ópera, iluminando a baía, o cais, os navios e tudo o mais em seu redor.

Opera House- view from Harbour Bridge

Fizemos o passeio obrigatório de ferry até às praias de Manly e de Bondi. O trilho a pé pela costa entre Bondi e Bronte a vislumbrar o Pacífico é absolutamente magnífico!

Apesar da tempestade que antecedeu, a passagem de ano a assistir ao espetáculo de luz e fogo na Harbour Bridge foi o ponto alto da nossa visita à Austrália.

Sentimos que ficou muito por explorar deste país imenso, de gente que anseia encontrar as suas origens, onde a história se perdeu, e se revive na herança aborígene.

Estrada sem destino – Road to nowhere

Escolhemos embarcar nesta aventura sem nenhuma certeza. Guiados pelo desejo de conhecer o Mundo, mas sem nenhum mapa ou bússola. Abandonámos um caminho seguro e estável para nos voltarmos a conhecer. Sem pressas, sem rotinas impostas, sem a estruturação diária a que habitualmente estamos sujeitos.

Mom & Dad

Resolvemos quebrar o vínculo contratual com a sociedade moderna. Cortámos a ligação umbilical que nos sustentava num casulo. Protegidos, mas reféns, numa servidão voluntária que alimenta a nossa inércia natural com o conforto da certeza.

Certeza de estarmos alinhados, de sermos iguais. Porque a doença maior do ser humano é não aceitar a diferença. A lucidez parece ecoar no mantra da estabilidade.

Uma família sem casa, sem emprego, sem escola e sem destino. Outrora submissos de um sistema social, hipnotizados pelas promessas de felicidade. Agora perdidos no desconhecido.

The kids

Um dia caminhamos por trilhos difíceis como em Yosemite, no outro lavamos as feridas. Adormecemos com frio e acordamos para um fantástico dia numa praia paradisíaca do Hawaii. Vemos paisagens únicas como as de Yellowstone e desesperamos por não encontrarmos um sítio confortável para ficar uns dias. Os miúdos fazem birras porque não querem estudar como nos comprometemos com o plano de Ensino Doméstico, mas logo depois nos surpreendem com um pequeno-almoço preparado por eles.

E continuamos a julgar-nos e a compararmo-nos. Mas também a aprender e a questionar.

De repente sentimos que não somos diferentes. Colecionamos momentos bons e momentos maus. Procuramos estruturar os nossos dias, encontrar rotinas que nos façam funcionar. Não queremos semear ilusões. Viajar é um processo de descoberta como tantos outros.

Somos apenas uma família a viajar.

“Roads were made for journeys not for destinations.”

                                       Confucius

 

 

Tasmânia: a natureza intocada

Atravessámos o estreito de Bass numa noite de tempestade. Estas águas tumultuosas já foram outrora comparadas ao triângulo das Bermudas (curiosidades) . A viagem de dez horas no Spirit of Tasmania não foi fácil. Esta embarcação extraordinária é a principal ligação de passageiros e mercadorias entre o continente e esta ilha australiana.

Spirit of Tasmania

Levámos connosco aquela que vai ser a nossa casa durante os próximos dois meses e meio: a Jucy.

Our Jucy

Desembarcámos na pequena cidade de Devonport prontos para explorar. Descobrimos diamantes em bruto perdidos em telas azuis, verdes e laranja. O nosso favorito: a Bay of Fires.

Águas de tons turquesa, cristalinas, com laivos de espuma branca. As areias finas e alvas a desenhar meias luas. Praias ocultas por uma vegetação densa e diversificada que parece protegê-las de qualquer invasor. As formações rochosas muralham as baías e desenham a costa, servindo de casa a estrelas do mar, ouriços, corais e líquenes que cobrem as pedras negras com um manto laranja. Ouvem-se apenas as ondas que desmaiam na areia e o chilrear dos pássaros. E o silêncio. Sentimo-nos como náufragos a caminhar pelo areal…

Bay of Fires

O ponto mais alto da Tasmânia, a Cradle Mountain, é uma das principais atrações. Visitámos num dia chuvoso e cinzento que certamente nos roubou a beleza deste parque nacional. As nuvens escuras cobriam o cume onde ainda se vislumbrava entre a neblina alguma neve. Ainda fizemos um pequeno trilho ao longo do grande lago no sopé da montanha mas o mau tempo forçou-nos à retirada.

Fizemos muitos quilómetros ao longo de toda a ilha. A Primavera tinha já começado a colorir a vegetação. Os arbustos em flor. Os prados mais verdes. Praticamente não havia pessoas. Só vacas e ovelhas. Ovelhas tosquiadas. Inúmeros pontos brancos no meio de um verde imenso a contrastar com o céu. Certamente alguma lei da física explicará este fenómeno, mas a verdade é que no hemisfério sul o céu é de um azul diferente.

Acampámos no Parque Nacional de Freycinet e também no de Mount Field.

Tivemos a sorte de poder observar a vida selvagem autóctone: Diabos da Tasmânia, Echidneas (estes animais vivem na Terra desde o tempo dos dinossauros), Wallabys, Tiger Snakes  (uma das 5 cobras mais venenosas da Austrália) e Platypus na natureza.

Para completar a experiência, visitámos o Nature World – Sanctuary for Wildlife onde aprendemos mais sobre estes animais. Aqui foi possível caminhar ao lado de pavões brancos, tocar em Wombats, ver Diabos da Tasmânia, Quolls, Possums e até alimentar cangurus.

 

Feeding the Kangaroos

A Tasmânia era uma antiga colónia penal. Visitámos as ruínas das minas de carvão para onde eram enviados os piores criminosos e descobrimos a origem do nome dos Diabos da Tasmânia. Diz-se que muitos prisioneiros que conseguiam escapar da prisão e se aventuravam nas densas florestas, quando ouviam os guinchos destes animais ficavam tão assustados que rapidamente se voltavam a entregar.

Esta ilha é um lugar remoto e muito pouco explorado. Aqui a natureza permanece quase intocada, num estado puro. São quilómetros de costa de uma beleza absolutamente inexplicável e que nos faz questionar a transformação operada pelo ser humano no planeta.

Mount Field – Lake view

Observar o por do sol à medida que o navio zarpava proporcionou-nos o melhor cenário de despedida.

Sunset Tasmania

 

“Look deep into nature, and then you will understand everything better”

                                                           Albert Einstein

 

 

Hawaii – o arquipélago paraíso

 

Hawaii. O seu estatuto insular e a sua posição geográfica elevam este arquipélago à categoria de paraíso do Pacífico.

Explorámos duas das suas ilhas: a Big Island e Oahu. Existem diversos micro-climas neste paraíso vulcânico junto ao trópico de Caranguejo. A chuva regular alimenta uma vegetação densa e uma flora tão diversificada como bela. Flores multicolores decoram a paisagem e perfumam o ar.  A água serpenteia as montanhas e desenha trilhos, cascatas e arco-íris. As praias multiplicam-se: areias pretas, brancas e até mesmo verdes. O mar tem um azul diferente, uma cor indescritível. As ondas formam-se com delicadeza mas rebentam com violência numa explosão de sal que salpica a pela e nos tempera com o sabor dos trópicos.

Ko Olina Beach

Por todo o lado existem pequenos mercados de agricultores locais (os “farmers markets”) onde se fundem aromas e sabores. Descobrimos novas formas de arte e inalamos o verdadeiro espírito da cultura Polinésia.

O povo havaiano vive num ritmo lento e descontraído. Os surfistas pincelam o azul-esverdeado do mar com as suas pranchas coloridas. A certeza da imensidão do oceano que os rodeia parece cristalizar o tempo. Os dias começam e terminam inevitavelmente no mar, tal como o sol.

A Big Island

É a maior ilha do Hawaii, Diz-se que no lado de Hilo está sempre chover. E não é mentira!

Ficámos os primeiros dias num fantástico Yurt no meio da selva tropical. O canto incessante dos pássaros presenteava as nossas noites com um concerto frenético que não facilitava o sono mas oferecia um espetáculo inigualável.

The Peaceful Yurt

Neste lado da ilha fomos à descoberta dos vulcões que esculpem esta paisagem em permanente evolução.

Mauna Kea – crater view

O Mauna Kea é a montanha mais alta do mundo. Os campos de lava solidificada pintam um cenário negro mas incrivelmente belo. As formas arredondadas e suaves da lava sugerem-nos uma plasticidade que já não existe. Os Petróglifos (gravuras rupestres esculpidas na lava) são impressionantes e levam-nos numa viagem por rituais ancestrais. Nas encostas do vulcão Mauna Loa crescem plantas de bagas vermelho-vivo e flor branca e aprimorada que dão origem a um café de renome internacional.

Petroglyfs at Volcano National Park

Fartos de chuva no paraíso partimos para o outro lado da ilha onde os ventos dissipam as nuvens e o céu azul parece abraçar o mar infinito debaixo do sol escaldante.

A melhor recordação que levamos desta pitoresca ilha obrigou-nos a uma viagem por terrenos sinuosos numa excitante aventura de Jeep. Depois de vários quilómetros por pisos tortuosos pudemos contemplar uma das quatro praias de areia verde que existem no nosso planeta. É algo de verdadeiramente único e inesquecível!

Papakolea – Green Sand Beach

Oahu 

Aterrámos em Honolulu sem direito ao Lei (colar de flores típico) ou a havaianas a dançarem o Hula a receberem-nos como vemos nos filmes. Fomos contudo surpreendidos por uma cidade moderna e vibrante, com uma complexa rede de estradas e prédios altos. Toda a costa fervilha de turistas e resorts luxuosos. Aqui as praias são realmente excepcionais. A areia é branca, fina e suave como um véu delicado.

The kids at Waikiki Beach – Honolulu

Não podíamos deixar de visitar Pearl Harbour. A lembrança do fatídico dia do ataque do Japão à frota naval americana eterniza-se no memorial erigido sobre o local onde permanecem os destroços do USS Arizona e, com eles, os restos mortais nunca identificados de muitas das vítimas desse massacre que justificou a entrada dos EUA numa guerra mundial e culminou com o uso de arsenal nuclear. Momentos da história que mudaram o Mundo para sempre e carregam uma valiosa lição para as gerações vindouras.

Pearl Harbour Memorial

Nenhuma visita ao Hawaii pode ficar completa sem experimentarmos uma ligeira metamorfose. Equipados com óculos e tubos especiais, transformámo-nos em peixes (ou sereias) e mergulhámos no recife de corais em Hanauma Bay. Peixes exóticos rodeavam-nos curiosos ou indiferentes. Outros, gigantes, pareciam vir direito a nós como que a marcar território. Até uma foca cansada se arrastou pelo areal para dormir uma sesta mesmo ali ao nosso lado.

E eis chegou a hora do Aloha – palavra de origem havaiana que significa tanto “Olá” como “Adeus”. Certamente esta forma de saudar facilita na hora da despedida, amenizando o trauma da partida como que a anunciar um futuro regresso. Levamos na bagagem memórias únicas…como este lugar.

Yellowstone – Heart of the Earth

Yelowstone. Beauty that inspires awe and power that has no opponent.

This super-volcano is tick-tacking underneath a cape of serenity. The amazing canyons, the river rapids, the waterfalls, the never-ending meadows as well as the breathtaking geysers are all comprised within this gigantic crater that was spotted only from space.

Everywhere marks of previous massive explosions. Events so catastrophic that, to happen again, could end life on Earth as we know it. And the giant can wake up at any moment now. He is breathing in every corner, reminding us of that.

Actually, you can hear him roar. From the “Dragon’s Mouth” echoes a growl right out of the Earth’s guts.

Dragon’s Mouth

Yellowstone is not monochromatic despite what the name may suggest. Actually, I don’t think you’ll ever see within the same eco-system such a wide range of colours, so vibrant, so strong, so unique. Yellowstone’s geysers and hot springs evoke the most amazing impressionist paintings. To climb up the hill and see the Grand Prismatic Spring from the top of a mountain is mind-blowing.

Grand Prysmatic Spring

This giant wants to deceive you into thinking he his predictable. He keeps punching the clock at the Old Faithfull’s cone geyser. No matter what, it is indeed a delightful vision to watch the scheduled eruption.

At Yellowstone you drive through a landscape in constant mutation. At one moment you can be overlooking the Grand Canyon and the river rapids, making a stop to watch a bubbling and smelly Caldron of Sulphur and along the way the angry river will turn into a quiet and gentile water flow where one can swim and fish or grow into an incredible super-lake where fish and other animals survive along-side with deadly geysers. Curiously enough, those dangerous geysers are also thriving life. It’s amazing what you can find in a bath of acid.

Sulphur bath

Yellowstone’s Lake

It’s impossible not to feel the overwhelming power of mother-nature while standing at Yellowstone. The elks, bears, bison, wolfs and other wildlife wander free in the park, crossing our way unbothered.

Bison walking down the road t Yellowstone National Park

This is a place where humans can only pay homage. Nothing can control Yellowstone for it is the heart of the Earth, pumping blood into its veins and keeping us alive. Until the day.

“Nature is not a place to visit. It is home”

                       Gary Snyder

Note of the author: You may want to read this article after mine.